Á espera dela..s

O banho fez-me bem. O dia foi passado em casa, a ler, a fumar cigarros, a comer mal,  a pensar no que queria e não conseguia fazer e, sobretudo, a pensar nela. Nela, Jacarta, um estranho amor da minha vida.

Dominaram-me sentimentos de abandono e falta de cuidado e o dilema era saber se estas emoções eram válidas. Decidi não ligar por vários motivos. 1. Para provar que me consigo controlar. 2. Porque não encontrar o conforto emocional que precisava do outro lado, iria fazer-me sofrer e possivelmente irritar. 3. Para não parecer nem ser fraca e desesperada. Consegui perfeitamente, apesar de ter olhado muitas vezes para o telefone.

Á tarde recebi a mensagem da Ruanda a dizer-me que me vinha ver. Sentimento misto de desinteresse e contentamento pela visita. O jantar foi esquisito, marcado pela minha  irritação com quase tudo o que era dito e a falta de assunto. Viemos para casa, vimos um filme e dormimos o menos juntas possível. Não consegui dar nem um abraço. Hoje de manhã levantou-se e veio-me dizer à cama que se ia embora, que era melhor, que eu queria estar sozinha e que ela não conseguia. Tinha a tristeza a saltar-lhes pelos olhos e uma vontade terrível de me abraçar. Ainda assim não me foi possível confortá-la nem com palavras nem com gestos. Disse-lhe apenas, “tu é que sabes”, “como achares melhor”, palavras covardes de quem não consegue assumir o que não sente. O pavor do abandono e da solidão quando a vi sair pela rua fora visitou-me mas não me inundou desta vez, o alívio por não ter que viver esta mentira, foi mais forte. Tinha planos traçados para este dia, juntas iríamos lavar o pátio, ao supermercado, etc., quando fiquei sozinha foram-se embora as forças, o ânimo e a vontade para qualquer destas tarefas ou outras. Saí de casa para comprar pão e tomar café e não sei como hei de transformar este vazio.

Entretanto ligou-me a Jacarta e passaram-se horas ao telefone. Já fui ao centro e vim, a pé, e estou exausta, não pela caminhada mas pelas longas horas de conversa. Estou cansada, estafada e exausta. Nem sei porque deixo isto acontecer. O meu dia hoje foi controlado por Jacarta.

Finalmente estou em casa e vou aproveitar para descansar e repor energias. Tenho um jantar para me servir, roupa para pôr a lavar e um ser para recentrar – eu. As minha fracas rotinas são importantes para mim e estou a permitir que vá tudo por água abaixo. Sinto-me fraca. Sei que ela me vai ligar novamente mas vou ter que assumir já que ou não atendo ou atendo e consigo pôr termo à conversa. É este vazio que procuro ansiosamente aniquilar e tenho a ilusão de que a solução está do outro lado da linha, na vida de alguém com substância e que agora precisa de mim. Diz que me ama, que sou o amor da sua vida, e isto faz-me sentir sem nada para dar, vazia e desinteressante, sem forças para propor o que seja e muito menos para o executar. Tenho que me recompor e não sei como enfrentar o cansaço que me limita.

 

 

De onde vem a solidão?

Hoje vim para Lisboa. Acordei às 10 da manhã – alvorada!, ainda na cama, enviei mensagens, fiz telefonemas, falei com amigos no messenger e deixei programas alinhavados para três dias em Lisboa.

Levantei-me pouco depois das 11h, comi à pressa, comecei a preparar a mala e saí para ir à cidade. Ir ao café da mercearia do largo tornou-se o meu novo hábito. Gosto de ver a gente diferente que ali passa, na sua maioria são turistas, gosto do espaço arranjado com esmero e gosto, dá-me a sensação de urbanidade que tão desesperadamente preciso. A minha casa causa-me depressão, o meu bairro causa-me depressão, ir ao mesmo pequeno e pouco interessante café deixa-me deprimida, a rotina mata-me, acaba-me com a esperança, a criatividade, esgota-me a pouca energia, na província as lentes mostram-me uma vida sem propósito nem saída. Sinto-me impotente e encurralada, sem forma de dar a volta ao ciclo vicioso da escuridão. Quando venho a Lisboa parece que tudo ganha um brilho, que é possível, que a vida é boa, que gosto de estar viva, penso nas coisas que poderia e que quero fazer.

Hoje vi o filme ‘Marte’ sobre um astronauta que fica preso em Marte e consegue, sozinho, sobreviver cerca de três anos naquele ambiente inóspito e sem nada para fazer a não ser conseguir manter-se vivo. Encarrega-se de plantar comida, de manter a rotina e a disciplina, ouvir música, dizer piadas, manter-se firme no seu propósito de viver e de dar um sentido aos seus dias e ao seu tempo, apesar de estar isolado, sem contacto com ninguém e com poucas chances de vir a ser resgatado. Fez-me pensar que também eu poderia encarar a minha vida com o mesmo espírito e que poderia desenvolver projectos e executar tarefas com a mesma energia, satisfação e empenho que este homem perdido a milhões de quilómetros de distância do planeta. Estou tão mais perto de casa e acompanhada do que este homem e, no entanto, sinto-me profundamente só e desamparada no meu dia a dia. O sentimento é de nada vale a pena. Como poderei fazer para levar a energia que sinto aqui para a minha cidade? Como evitar cair no buraco medonho e vazio da solidão e do sentimento de vida vã? O que aqui me parece viável, útil e entusiasmante, lá não tem nenhum sentido, não vale a pena nem é exequível com os meus níveis de energia e capacidade de execução. No entanto, nestes dias que estive na minha quinta rocei uma grande quantidade de mato, arranquei malvas à mão, senti-me útil, com energia e orgulhosa do bom trabalho executado. Por isso, sei que consigo. Mas não estava só, o que faz toda a diferença. Quando não estou só,  as coisas valem a pena e o mundo ganha cor.  Quando estou sozinha nada vale a pena, nada parece possível, nada apetece, a vida é uma tristeza sem fim. E há tantas coisas que gostava de fazer mas só em pensamento, em teoria, quando estou acompanhada ou venho a Lisboa banhar-me com a diversidade da multidão. Aqui, mesmo quando estou sozinha, sinto-me bem. Aqui não faz mal andar a passear sem ninguém. Aliás, é como se passeasse pelo mundo, como se também eu tivesse vida, protegida pelo anonimato e pela quantidade de pessoas que estão também sem ninguém. Lá, estar sozinha significa não ter ninguém, não é uma escolha, é uma imposição por não fazer-nos parte da vida de ninguém. Aqui estou sozinha porque quero, podia não estar. Tenho tanta gente a quem telefonar que ficaria contente com o meu contacto e a minha companhia.  Só estou só porque quero. Mas não faz mal porque tenho os meus interesses, porque sou também uma pessoa que gosta de estar consigo mesma. Lá, sou ninguém.

Afinal o que é a solidão? Realidade ou percepção?