Projectos 1.0

Hoje decidi que vou escrever num canto, seja papel ou digital, sobre os meus projectos, as coisas que quero fazer ou ter. Tendo em contas as circunstâncias do agora – estou na cama da filha de uma amiga, num quarto bem acolhedor cheio de cor de rosa – e que só chego a casa amanhã, começo já aqui. É importante aproveitar a energia desta vontade antes que desvaneça e sucumba.

Então já decidi que quero comprar uma autocaravana, quero melhorar a minha casa e quero ter um barco em Mértola.

Vou ter que explorar mais estas ideias, calcular quanto custam e traçar um plano. Também tenho que as colorir mais, viver mais, imaginar melhor.

Estou a passar o fim-de-semana na Arrábida, na casa da amiga Tolstoi, e está a ser bom. Fizemos um jantar de amigos hoje, vieram cá ter a Narcisa, a Magnólia e estava também o Malvin. Senti-me quase sempre bem. Os cigarros destroe-me, tirar-me a capacidade de interagir. Faço tudo para pôr os outros a falar e faça-o bem. Revelam sem dificuldades ou constrangimentos o que lhes vai na alma. O difícil está em gostar de me ouvir ou em falar sobre os assuntos com fluidez, convicção e vivacidade. Além dos meus assuntos pessoais, pouco partilho das minhas opiniões, acho que me sinto em perigo de me expressar frontalmente, tenho pavor que me dê um bloqueio depois de expressar a minha opinião caso o meu interlocutor não concorde ou até esteja frontalmente em desacordo. É estranho.

Hoje a Jacarta só me mandou uma breve fotografia por mensagem e nada mais. Eu respondi passadas algumas horas e não comunicàmos mais durante o dia todo. Passou-me o stress de não comunicarmos e estive quase sempre calma e tranquila. Só ontem é que tive medo que o seu silêncio quisesse dizer que não me quer na sua vida. Hoje estive quase sempre serena e com a certeza de que estamos relativamente juntas.

Mas não é sobre isto este post, aqui é sobre os projectos de futuros embora escritos não parecem tão excitantes e entusiasmantes como quando os imaginei. Parecem banais até. Na verdade, sem pessoas os meus projectos ficam desinteressantes e o pior é que é sem pessoa até. Sendo que há 6 anos que não encontro um pessoa dessas. Minto, há Jacarta e Canadá.

Advertisements

Aguenta, aguenta – no fio da navalha

Ao terceiro dia que Jacarta foi passar o fim-de-semana com as amigas, o silêncio, só interrompido por uma mensagem fotográfica, mantém-se. Cresce em mim a ansiedade e o medo de que possa ter mudado de ideias em relação a nós. Hoje tive um pesadelo tão mau e devastador que acordei a chorar. Jacarta não me telefonava há dias e dei então com ela numa casa grande, onde várias pessoas se movimentavam, entravam e saiam, sendo uma delas Conacri que me comprimentou efusivamente. Quando finalmente encontrei Jacarta ela estava a sair desta casa,  pediu-me desculpas e disse-me que não podia. Mais pormenores do enredo não me lembro mas sinto ainda na pele a dor que me causou o novo abandono.

É preciso dizer que tivemos uma relação de mais de dois anos durante a qual moramos juntas, a que se seguiu um período de um ano de afastamento imposto por mim e depois cerca de 6 meses de relação sem compromisso. Esta segunda versão do nosso relacionamento correu muito bem mas acabou de forma muito dolorosa.

Estou apostada em lidar e enfrentar com esta situação. Não tenho resposta para o que seria o correcto fazer pois há riscos, razões e emoções envolvidos. Se eu pudesse controlar as emoções, passava para uma relação de mera amizade e assim não teria que sofrer quando e se ela se envolver com alguém. Esta é uma dor pela qual eu não quero passar. Não quero mesmo, não sei se aguento. Mas como lidar com a dor, como lidar com a ansiedade, como lidar com o vazio que sinto sem ela e que nunca preenchi nestes anos em que não estivemos juntas? Este vazio é uma coisa que me incomoda muito. Será a falta de confiança que tenho em mim mesma e que não me permite propor nada nem a mim nem aos outros? E a solidão, de onde vem?  Sinto uma solidão crónica que só é (parcialmente) interrompida quando estou a falar ou em contacto com alguém. Até agora que estou na casa da minha amiga me sinto só é abandonada enquanto ela foi à reunião de condomínio e apesar de eu precisar de descansar.

Já cheguei a casa. Estou aqui atenta e a fazer um esforço para preencher a minha sala. Acendi umas velas, trouxe as empadas no prato. Faço um esforço para ocupar algum espaço nesta casa, para usá-la de forma expansiva, por fazer as coisas com preceito e por cuidar bem de mim.

Ainda não sei como devo agir quando Jacarta me ligar. Estou zangada com ela ? Estou triste ? Estou lixada, sim, estou lixada, mas não sei se é legítimo que esteja. Não temos uma relação. Mas é chato que me ligue imensas vezes quando está em baixo e que quando está de fim-se-semana com amigas não me ligue nada. Posso exigir alguma coisa? Posso, mas não é suposto. Devo exigir alguma coisa? Provavelmente não. Ganho mais ou menos em exigir o que quer que seja? Não devo cobrar o que dou. Estou tão baralhada.

Domingo.

O Fim do Dia

Estou muito cansada. Talvez tenha sido do cigarro que fumei, fico com a cabeça atabalhoada, vejo tudo mais negro e perco a esperança. Não gostei do telefonema com Jacarta, não me senti amada, querida, cuidada. Rimos muito no meio da conversa e isso foi bom mas muitas vezes pareceram-me coisas forçadas. Esta mulher traz-me cor à vida, sem dúvida que tudo fica mais interessante mas não me sinto especial e não sei porquê. Hoje à tarde disse-me coisas lindas, como eu era um ser humano excepcional, como se sentiu amada e vista por mim como por mais ninguém, como sabia que me iria amar para sempre e, ainda assim, não me sinto segura e protegida por ela.

Também falei com Canadá que me disse  que tinha adorado as nossas férias, que se tinha sentido muito bem, que tinha adorado a praia, a música, os cozinhados, os pequenos almoços, as conversas, os filmes, o sol, tudo. Que estava espantada por ainda transportar a leveza e o ânimo que trouxe desses dias. Estará apaixonada? Surgiu uma nova dinâmica entre nós nestas férias, demos a mão, trocámos afectos e carinhos, mas nunca nos beijamos. Vontade não me faltou mas faltou-me coragem. Somos amigas há tantos anos e é uma amizade de que eu não quero prescindir.  Se não dá certo como fica a nossa relação? E tenho medo que não possa expressar toda ou nem grande parte da minha necessidade emocional com ela por ser uma pessoal essencialmente racional e com uma grande necessidade de espaço. Mas sei que se ela der o passo eu não hesitarei.

A minha vida está uma confusão. Jogo em todas as frentes na esperança de alguma coisa da certo ou que a soma de todas as partes ser algo de suportável.

Quarta-feira.

Á espera dela..s

O banho fez-me bem. O dia foi passado em casa, a ler, a fumar cigarros, a comer mal,  a pensar no que queria e não conseguia fazer e, sobretudo, a pensar nela. Nela, Jacarta, um estranho amor da minha vida.

Dominaram-me sentimentos de abandono e falta de cuidado e o dilema era saber se estas emoções eram válidas. Decidi não ligar por vários motivos. 1. Para provar que me consigo controlar. 2. Porque não encontrar o conforto emocional que precisava do outro lado, iria fazer-me sofrer e possivelmente irritar. 3. Para não parecer nem ser fraca e desesperada. Consegui perfeitamente, apesar de ter olhado muitas vezes para o telefone.

Á tarde recebi a mensagem da Ruanda a dizer-me que me vinha ver. Sentimento misto de desinteresse e contentamento pela visita. O jantar foi esquisito, marcado pela minha  irritação com quase tudo o que era dito e a falta de assunto. Viemos para casa, vimos um filme e dormimos o menos juntas possível. Não consegui dar nem um abraço. Hoje de manhã levantou-se e veio-me dizer à cama que se ia embora, que era melhor, que eu queria estar sozinha e que ela não conseguia. Tinha a tristeza a saltar-lhes pelos olhos e uma vontade terrível de me abraçar. Ainda assim não me foi possível confortá-la nem com palavras nem com gestos. Disse-lhe apenas, “tu é que sabes”, “como achares melhor”, palavras covardes de quem não consegue assumir o que não sente. O pavor do abandono e da solidão quando a vi sair pela rua fora visitou-me mas não me inundou desta vez, o alívio por não ter que viver esta mentira, foi mais forte. Tinha planos traçados para este dia, juntas iríamos lavar o pátio, ao supermercado, etc., quando fiquei sozinha foram-se embora as forças, o ânimo e a vontade para qualquer destas tarefas ou outras. Saí de casa para comprar pão e tomar café e não sei como hei de transformar este vazio.

Entretanto ligou-me a Jacarta e passaram-se horas ao telefone. Já fui ao centro e vim, a pé, e estou exausta, não pela caminhada mas pelas longas horas de conversa. Estou cansada, estafada e exausta. Nem sei porque deixo isto acontecer. O meu dia hoje foi controlado por Jacarta.

Finalmente estou em casa e vou aproveitar para descansar e repor energias. Tenho um jantar para me servir, roupa para pôr a lavar e um ser para recentrar – eu. As minha fracas rotinas são importantes para mim e estou a permitir que vá tudo por água abaixo. Sinto-me fraca. Sei que ela me vai ligar novamente mas vou ter que assumir já que ou não atendo ou atendo e consigo pôr termo à conversa. É este vazio que procuro ansiosamente aniquilar e tenho a ilusão de que a solução está do outro lado da linha, na vida de alguém com substância e que agora precisa de mim. Diz que me ama, que sou o amor da sua vida, e isto faz-me sentir sem nada para dar, vazia e desinteressante, sem forças para propor o que seja e muito menos para o executar. Tenho que me recompor e não sei como enfrentar o cansaço que me limita.

 

 

De onde vem a solidão?

Hoje vim para Lisboa. Acordei às 10 da manhã – alvorada!, ainda na cama, enviei mensagens, fiz telefonemas, falei com amigos no messenger e deixei programas alinhavados para três dias em Lisboa.

Levantei-me pouco depois das 11h, comi à pressa, comecei a preparar a mala e saí para ir à cidade. Ir ao café da mercearia do largo tornou-se o meu novo hábito. Gosto de ver a gente diferente que ali passa, na sua maioria são turistas, gosto do espaço arranjado com esmero e gosto, dá-me a sensação de urbanidade que tão desesperadamente preciso. A minha casa causa-me depressão, o meu bairro causa-me depressão, ir ao mesmo pequeno e pouco interessante café deixa-me deprimida, a rotina mata-me, acaba-me com a esperança, a criatividade, esgota-me a pouca energia, na província as lentes mostram-me uma vida sem propósito nem saída. Sinto-me impotente e encurralada, sem forma de dar a volta ao ciclo vicioso da escuridão. Quando venho a Lisboa parece que tudo ganha um brilho, que é possível, que a vida é boa, que gosto de estar viva, penso nas coisas que poderia e que quero fazer.

Hoje vi o filme ‘Marte’ sobre um astronauta que fica preso em Marte e consegue, sozinho, sobreviver cerca de três anos naquele ambiente inóspito e sem nada para fazer a não ser conseguir manter-se vivo. Encarrega-se de plantar comida, de manter a rotina e a disciplina, ouvir música, dizer piadas, manter-se firme no seu propósito de viver e de dar um sentido aos seus dias e ao seu tempo, apesar de estar isolado, sem contacto com ninguém e com poucas chances de vir a ser resgatado. Fez-me pensar que também eu poderia encarar a minha vida com o mesmo espírito e que poderia desenvolver projectos e executar tarefas com a mesma energia, satisfação e empenho que este homem perdido a milhões de quilómetros de distância do planeta. Estou tão mais perto de casa e acompanhada do que este homem e, no entanto, sinto-me profundamente só e desamparada no meu dia a dia. O sentimento é de nada vale a pena. Como poderei fazer para levar a energia que sinto aqui para a minha cidade? Como evitar cair no buraco medonho e vazio da solidão e do sentimento de vida vã? O que aqui me parece viável, útil e entusiasmante, lá não tem nenhum sentido, não vale a pena nem é exequível com os meus níveis de energia e capacidade de execução. No entanto, nestes dias que estive na minha quinta rocei uma grande quantidade de mato, arranquei malvas à mão, senti-me útil, com energia e orgulhosa do bom trabalho executado. Por isso, sei que consigo. Mas não estava só, o que faz toda a diferença. Quando não estou só,  as coisas valem a pena e o mundo ganha cor.  Quando estou sozinha nada vale a pena, nada parece possível, nada apetece, a vida é uma tristeza sem fim. E há tantas coisas que gostava de fazer mas só em pensamento, em teoria, quando estou acompanhada ou venho a Lisboa banhar-me com a diversidade da multidão. Aqui, mesmo quando estou sozinha, sinto-me bem. Aqui não faz mal andar a passear sem ninguém. Aliás, é como se passeasse pelo mundo, como se também eu tivesse vida, protegida pelo anonimato e pela quantidade de pessoas que estão também sem ninguém. Lá, estar sozinha significa não ter ninguém, não é uma escolha, é uma imposição por não fazer-nos parte da vida de ninguém. Aqui estou sozinha porque quero, podia não estar. Tenho tanta gente a quem telefonar que ficaria contente com o meu contacto e a minha companhia.  Só estou só porque quero. Mas não faz mal porque tenho os meus interesses, porque sou também uma pessoa que gosta de estar consigo mesma. Lá, sou ninguém.

Afinal o que é a solidão? Realidade ou percepção?