Aguenta, aguenta – no fio da navalha

Ao terceiro dia que Jacarta foi passar o fim-de-semana com as amigas, o silêncio, só interrompido por uma mensagem fotográfica, mantém-se. Cresce em mim a ansiedade e o medo de que possa ter mudado de ideias em relação a nós. Hoje tive um pesadelo tão mau e devastador que acordei a chorar. Jacarta não me telefonava há dias e dei então com ela numa casa grande, onde várias pessoas se movimentavam, entravam e saiam, sendo uma delas Conacri que me comprimentou efusivamente. Quando finalmente encontrei Jacarta ela estava a sair desta casa,  pediu-me desculpas e disse-me que não podia. Mais pormenores do enredo não me lembro mas sinto ainda na pele a dor que me causou o novo abandono.

É preciso dizer que tivemos uma relação de mais de dois anos durante a qual moramos juntas, a que se seguiu um período de um ano de afastamento imposto por mim e depois cerca de 6 meses de relação sem compromisso. Esta segunda versão do nosso relacionamento correu muito bem mas acabou de forma muito dolorosa.

Estou apostada em lidar e enfrentar com esta situação. Não tenho resposta para o que seria o correcto fazer pois há riscos, razões e emoções envolvidos. Se eu pudesse controlar as emoções, passava para uma relação de mera amizade e assim não teria que sofrer quando e se ela se envolver com alguém. Esta é uma dor pela qual eu não quero passar. Não quero mesmo, não sei se aguento. Mas como lidar com a dor, como lidar com a ansiedade, como lidar com o vazio que sinto sem ela e que nunca preenchi nestes anos em que não estivemos juntas? Este vazio é uma coisa que me incomoda muito. Será a falta de confiança que tenho em mim mesma e que não me permite propor nada nem a mim nem aos outros? E a solidão, de onde vem?  Sinto uma solidão crónica que só é (parcialmente) interrompida quando estou a falar ou em contacto com alguém. Até agora que estou na casa da minha amiga me sinto só é abandonada enquanto ela foi à reunião de condomínio e apesar de eu precisar de descansar.

Já cheguei a casa. Estou aqui atenta e a fazer um esforço para preencher a minha sala. Acendi umas velas, trouxe as empadas no prato. Faço um esforço para ocupar algum espaço nesta casa, para usá-la de forma expansiva, por fazer as coisas com preceito e por cuidar bem de mim.

Ainda não sei como devo agir quando Jacarta me ligar. Estou zangada com ela ? Estou triste ? Estou lixada, sim, estou lixada, mas não sei se é legítimo que esteja. Não temos uma relação. Mas é chato que me ligue imensas vezes quando está em baixo e que quando está de fim-se-semana com amigas não me ligue nada. Posso exigir alguma coisa? Posso, mas não é suposto. Devo exigir alguma coisa? Provavelmente não. Ganho mais ou menos em exigir o que quer que seja? Não devo cobrar o que dou. Estou tão baralhada.

Domingo.

O Fim do Dia

Estou muito cansada. Talvez tenha sido do cigarro que fumei, fico com a cabeça atabalhoada, vejo tudo mais negro e perco a esperança. Não gostei do telefonema com Jacarta, não me senti amada, querida, cuidada. Rimos muito no meio da conversa e isso foi bom mas muitas vezes pareceram-me coisas forçadas. Esta mulher traz-me cor à vida, sem dúvida que tudo fica mais interessante mas não me sinto especial e não sei porquê. Hoje à tarde disse-me coisas lindas, como eu era um ser humano excepcional, como se sentiu amada e vista por mim como por mais ninguém, como sabia que me iria amar para sempre e, ainda assim, não me sinto segura e protegida por ela.

Também falei com Canadá que me disse  que tinha adorado as nossas férias, que se tinha sentido muito bem, que tinha adorado a praia, a música, os cozinhados, os pequenos almoços, as conversas, os filmes, o sol, tudo. Que estava espantada por ainda transportar a leveza e o ânimo que trouxe desses dias. Estará apaixonada? Surgiu uma nova dinâmica entre nós nestas férias, demos a mão, trocámos afectos e carinhos, mas nunca nos beijamos. Vontade não me faltou mas faltou-me coragem. Somos amigas há tantos anos e é uma amizade de que eu não quero prescindir.  Se não dá certo como fica a nossa relação? E tenho medo que não possa expressar toda ou nem grande parte da minha necessidade emocional com ela por ser uma pessoal essencialmente racional e com uma grande necessidade de espaço. Mas sei que se ela der o passo eu não hesitarei.

A minha vida está uma confusão. Jogo em todas as frentes na esperança de alguma coisa da certo ou que a soma de todas as partes ser algo de suportável.

Quarta-feira.