De onde vem a solidão?

Hoje vim para Lisboa. Acordei às 10 da manhã – alvorada!, ainda na cama, enviei mensagens, fiz telefonemas, falei com amigos no messenger e deixei programas alinhavados para três dias em Lisboa.

Levantei-me pouco depois das 11h, comi à pressa, comecei a preparar a mala e saí para ir à cidade. Ir ao café da mercearia do largo tornou-se o meu novo hábito. Gosto de ver a gente diferente que ali passa, na sua maioria são turistas, gosto do espaço arranjado com esmero e gosto, dá-me a sensação de urbanidade que tão desesperadamente preciso. A minha casa causa-me depressão, o meu bairro causa-me depressão, ir ao mesmo pequeno e pouco interessante café deixa-me deprimida, a rotina mata-me, acaba-me com a esperança, a criatividade, esgota-me a pouca energia, na província as lentes mostram-me uma vida sem propósito nem saída. Sinto-me impotente e encurralada, sem forma de dar a volta ao ciclo vicioso da escuridão. Quando venho a Lisboa parece que tudo ganha um brilho, que é possível, que a vida é boa, que gosto de estar viva, penso nas coisas que poderia e que quero fazer.

Hoje vi o filme ‘Marte’ sobre um astronauta que fica preso em Marte e consegue, sozinho, sobreviver cerca de três anos naquele ambiente inóspito e sem nada para fazer a não ser conseguir manter-se vivo. Encarrega-se de plantar comida, de manter a rotina e a disciplina, ouvir música, dizer piadas, manter-se firme no seu propósito de viver e de dar um sentido aos seus dias e ao seu tempo, apesar de estar isolado, sem contacto com ninguém e com poucas chances de vir a ser resgatado. Fez-me pensar que também eu poderia encarar a minha vida com o mesmo espírito e que poderia desenvolver projectos e executar tarefas com a mesma energia, satisfação e empenho que este homem perdido a milhões de quilómetros de distância do planeta. Estou tão mais perto de casa e acompanhada do que este homem e, no entanto, sinto-me profundamente só e desamparada no meu dia a dia. O sentimento é de nada vale a pena. Como poderei fazer para levar a energia que sinto aqui para a minha cidade? Como evitar cair no buraco medonho e vazio da solidão e do sentimento de vida vã? O que aqui me parece viável, útil e entusiasmante, lá não tem nenhum sentido, não vale a pena nem é exequível com os meus níveis de energia e capacidade de execução. No entanto, nestes dias que estive na minha quinta rocei uma grande quantidade de mato, arranquei malvas à mão, senti-me útil, com energia e orgulhosa do bom trabalho executado. Por isso, sei que consigo. Mas não estava só, o que faz toda a diferença. Quando não estou só,  as coisas valem a pena e o mundo ganha cor.  Quando estou sozinha nada vale a pena, nada parece possível, nada apetece, a vida é uma tristeza sem fim. E há tantas coisas que gostava de fazer mas só em pensamento, em teoria, quando estou acompanhada ou venho a Lisboa banhar-me com a diversidade da multidão. Aqui, mesmo quando estou sozinha, sinto-me bem. Aqui não faz mal andar a passear sem ninguém. Aliás, é como se passeasse pelo mundo, como se também eu tivesse vida, protegida pelo anonimato e pela quantidade de pessoas que estão também sem ninguém. Lá, estar sozinha significa não ter ninguém, não é uma escolha, é uma imposição por não fazer-nos parte da vida de ninguém. Aqui estou sozinha porque quero, podia não estar. Tenho tanta gente a quem telefonar que ficaria contente com o meu contacto e a minha companhia.  Só estou só porque quero. Mas não faz mal porque tenho os meus interesses, porque sou também uma pessoa que gosta de estar consigo mesma. Lá, sou ninguém.

Afinal o que é a solidão? Realidade ou percepção?

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